Ne medida certa

O sonho stalker

Junho 29, 2008 · Não Há Comentários

A tendência era acompanhar a vida alheia. Não só acompanhar, mas direcionar. O prazer máximo do stalker. Era possível ter a delicadeza dos detalhes e acesso aos pensamentos de cada uma das partes envolvidas. A graça estava em poder colocar o seu julgamento para controlar o resultado de uma história. Qualquer história. E os atores reais jamais desconfiariam. Como não existe certo ou errado para um desfecho da vida, ninguém se importava com a dor ou a alegria que seriam consequentemente geradas.

O grupo era formado por  47 pessoas. Se encontravam semanalmente em uma sala de cinema no centro da cidade. Cada cadeira da sala, tinha 2 botões, um verde e o outro vermelho. Não se conheciam. Todos tinhas personalidades, habilidades e profissões diferentes. A única certeza era que todos gostavam de acompanhar histórias. O que fariam ao final de cada encontro, não era discutido. Um grupo fechado. Não era permitido comentários sobre aquele prazer semanal indescritível ou tudo seria perdido.

Dez minutos passados da hora marcada, a exibição começa.

***

No dia que ele decidiu que não a amava mais, levantou-se da cama no meio da madrugada e não teve mais coragem de olhar para o lado. Faltava a beleza, a verdade e a euforia dos primeiros dias. Foi para a sala sentindo-se frustrado.

Pensou nos problemas. Que problemas? Ah, sim eles existiam. As outras pessoas existiam. Doeu quando ele observou isso. “O combinado era eu e você. Se era para enxergar o resto, não precisava mais de você e dos seus pequenos grandes defeitos”. Os defeitos do jeito, do corpo. Que ele havia guardado em segredo. Queria explodir para todos quais eram eles. Para que pudessem entender sua situação. E se descobrissem os defeitos dela? E admirassem cada um, assim como ele fazia?

Ela tinha pressa de tudo. Pensou na voz, nos movimentos sempre rápidos. O jeito dela lidar com a vida em geral. Aquele jeito de mãe, aquele jeito de menina. O cabelo que entrava na boca, na hora de dormir. A unha quebrada que arranhava as costas. Abriu uma garrafa, entornou vários copos de qualquer coisa que tinha na sala.

Acordou no sofá, um pouco torto. Tudo estava cinza e quieto.”Devia ter dito a verdade. Sempre. Devia ter pensado mais em mim. Devia ter pensado mais em você”. Imaginou como seria a sua vida, se tivesse  a coragem de fazer tudo diferente. Uma mulher mais bonita talvez. Mais quieta. Que não opinasse tanto. Quando pensou na vida dela sem ele, fechou a cara. Ela poderia ter sido mais feliz. Não gostava de admitir isso. Ele a fazia feliz.

Foi até o quarto em passos firmes. Ao lado dela conseguia ser estranho, sem entorpecer o mundo com suas particularidades, pois havia compreensão. Sentia-se bem em ser bobo e ao mesmo tempo diabólico. Gostavam de emitir opiniões sobre o nada ou quase nada. As opiniões emitidas em conjunto, era que tornava um tópico importante.

Abriu a porta do quarto. Escutou a música. Objects of my affection. “And the question is was I more alive than right now?”. Lembrou de todas as músicas. Do convite “Podemos dançar?” no meio da semana, no meio da sala. De quando não era preciso mostrar quem era com palavras.

Sentou na poltrona.

***

O grupo se entreolhou. Teriam 5 minutos para decidir pela declaração de não-amor. Ou não.

O que você escolheria se fizesse parte desse grupo?

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Dorothy de verniz

Maio 17, 2008 · Não Há Comentários

Hoje eu vou falar sobre escovas de dente. E a alegria que uma Colgate 360 pode causar. Ela é macia na medida certa, faz carinho na gengiva e na língua. Ela não é só gostosa de usar como também é prática. Muitos adjetivos para uma escova de dentes.

Hora de escovar o dente não é o momento mais agradável do dia. Não é falta de princípios de higiene ou preguiça. Simplesmente não é. Ponto. O que eu puder tentar para não esquecer desse necessário momento e torná-lo agradável, será bem-vindo. É óbvio que eu quero manter um sorriso decente. Também não desejo que meus dentes caiam. É nesse pensamento, que vai além do ato de escovar os dentes, que eu foco. E aí associar leveza para fazer acontecer a parte chata, me parece conveniente.

Trabalhar é um verbo de ação semelhante ao escovar os dentes. E hoje, durante a homenagem feita ao presidente da Agência, ele frisou a importância de olhar para trás e ver que se divertiu no trajeto. É o que faz valer a pena. Eu afirmei com a  cabeça. A manifestação positiva e silenciosa era percebida em outras cabeças também.

Na estrada de tijolos amarelos que me leva até o banheiro (hora de escovar os dentes, bah!), eu encontro um colega. Ele afirma que eu subvertí aquele ambiente com um sapato de verniz multicolorido. Minha postura era quase um acinte ao ambiente que nos rodeava. Mas ali, naquele espaço, mostrava que a minha personalidade casava perfeitamente com o espírito daquela equipe. Eu sabia me divertir. Eu fazia isso de forma que até o meu outfit carregava essa mensagem.

Meu apelido é fácil prever. Dorothy. Ele não conseguiu esquecer o verniz. Eu não conseguia parar de imaginar que, um dia, assim como ela, eu ia ter vontade de sair de Oz e voltar para casa. Estou caminhando até o mágico, em busca dos meus desejos. Espero não esquecer que o trajeto foi divertido. Cuidar do bolso e dos dentes é recomendável sempre. Portanto que não se abdique da satisfação pessoal, que no meu caso, passa no epicentro da diversão.

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3

Maio 14, 2008 · 1 Comentário

A vida volta a apresentar 3 opções. Respiro aliviada. Enquanto existiam apenas 2, eu sabia que era sinal de alerta. O 3 representa equilíbrio.

Desde pequena me ensinaram que tudo apresentado em 3 é mais interessante. No colégio católico, se fala na Santíssima Trindade. E que Judas negou Jesus 3 vezes. Minha pasta de papel de cartas só foi considerada completa com a coleção dos Three Little Star (3 pinguins fofos, uma coqueluxe da época). As histórias mais emocionantes tinham 3 personagens: os 3 porquinhos, os 3 mosqueteiros, as 3 fadas da Disney e os 3 sobrinhos do Donald. Também nunca consegui repetir o trava-língua “três pratos de trigo para três tigres tristes”.

Cresci um pouquinho e minha personalidade foi construída em cima do número 3. Na democracia, esse é o número mínimo de pessoas necessárias para tomar uma decisão em grupo. Existem os 3 Poderes para nos apoiar (jurídico, executivo, legislativo). Comecei a entender que algo bem explicado, vem acompanhado de 3 adjetivos. A figura mais sólida é o triângulo, por motivos geométricos. Foi com o 3 que ganhei meu primeiro concurso literário. Uma história sobre 3 acontecimentos na vida de 3 pessoas distintas, que tinha como cenário o Triângulo Mineiro.

Sempre dei mais valor ao medalhista de bronze do que para o segundo lugar. O que vale é ganhar no final. Mesmo que exista uma derrota precedente, o terceiro lugar está lá porque acabara de ganhar uma partida.

Três é suficiente para grande entretenimento. Precisamos de 3 grandes amigos na vida, 3 grandes momentos e, se for para entrar no quesito ousadia, ter uma história de ménage à trois para contar. Os melhores filmes (pelo menos os mais bem elaborados) são sempre uma trilogia.

Um boa história não tem ponto final. Ela deve usar reticências. Afinal, são 3 pontinhos. Mas isso não aprendí apenas com a Teoria dos 3. Segundo um amigo, aprendí com Tim Maia. Foi ele que destruiu a lógica desse número. Para ele, não importa se você tem 3 boas opções para se divertir. Você sempre vai sofrer por 1 grande motivo, aquele que vai tomar seus pensamentos, seu tempo e a boa utilização do ponto final. Maldito Tim Maia!

“De repente a dor
De esperar terminou
E o amor veio enfim
Eu que sempre sonhei
Mas não acreditei
Muito em mim

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez mas desta vez
Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor

Você
É mais do que sei 
É mais que pensei
É mais que esperava, baby

Você
É algo assim
É tudo pra mim
É como eu sonhava, baby

Sou feliz agora
Não não vá embora não
Não não não não não”

Você
Tim Maia

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O poder do talco

Maio 11, 2008 · Não Há Comentários

O talco foi a estrela da semana. Ele foi a peça principal de histórias sobre higiene, salvação, intervenções familiares e ligação com o divino. Um simples pó branco com cheiro de infância virou o centro das atenções.

O primeiro relato foi do talco como princípio de cabelos saudáveis e limpos por longo período. Ao perguntar como a garota conseguia manter a escova por tanto tempo, ela relata que o responsável é o talco. Simples: “Começou a criar aquela raiz sujinha, enfia talco Johnson’s no cocoruto e boa!!!”. Muito medo. E não é só isso. “Coloca nas dobrinhas humanas no verão, para evitar o suadouro e manter fresco”. Eu não questionei sobre a tradução de dobrinhas (inclusão ou não de partes íntimas), pois prefiro dormir um sono tranquilo a pensar na capacidade escatológica humana.

Essa conversa me lembrou que tenho uma tia-avó. Quase 90 anos de idade. Desde os 10 ela não lava a cabeça. A família inteira sofre de uma devoradora curiosidade. O motivo real dessa falta de asseio. Só que o mais intrigante não é isso. A cabeça não cheira, não coça e está sempre limpa e reluzente, Tem mais. Ela também não corta os cabelos desde o dia que parou de lavá-los. Alguns familiares dizem se tratar de uma promessa. Outros, que ela há de virar santa. Sim, santa. Afinal ela é prima de Antoninho da Rocha Marmo (medo episódio 2: isso me fez descobrir que sou parente próxima de santo quase canonizado pelo Vaticano. Deixa para pensar nisso depois).

No fim da Grande Guerra e em plena “gripe espanhola”, nascia, em São Paulo, uma criança privilegiada. Com seis meses apenas, Antoninho acenava para entrar nas igrejas por onde passava. Predisse a solução da velha pendência entre o Vaticano e o Quirinal. Seu passatempo predileto era “celebrar missas”, no quintal, num altarzinho portátil. Atacado de virulenta tuberculose, sucumbiu aos 12 anos. Sempre protegeu os pobres e os humildes. Conformou-se com a breve morte: teve uma previsão sobre o dia e a situação no episódio do Pintassilgo (o passarinho pousou na sua mão, no dia que ele falou que Deus anunciaria sua morte, por vontade Divina).

Uma história linda. E eu acabo de descobrir que tudo isso pode ser só o milagre do talco. Não vou divulgar aos entes queridos. As pessoas morrem um pouquinho quando descobrem que não são especiais. Ninguém suporta ter uma vida normal, uma história normal. É por isso que o divino, o destino e afins tem tanto espaço.

Ninguém nunca se questionou sobre o motivo de todos que fazem regressão serem reis, rainhas e pessoas importantes na história? Me apresenta um que era normal, inútil, pobre e que não deixou sua marca na história em outra vida? Não existe. Como que o terapêuta da regressão vai explicar para o cidadão que já é um ninguém nessa vida, que ele sempre foi assim em todos os ciclos? Não dá. A pessoa não aguenta.

E quem não entra na história de vidas passadas, apela nessa mesma. Prefere acreditar em brasão familiar, histórias incríveis e atos heróicos dos antepassados. Quando nem a história salva, o jeito é jogar para o futuro. Buscar algo para sí que vai além da capacidade humana. Algo para chamar de especial, mesmo que o significado dessa palavra no contexto seja desconhecido. Prefiro o talco. É mais real.

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Incredible

Maio 9, 2008 · 1 Comentário

Remembering the very first time
You caught that some ones’ specials eye
And all of your care dropped
And all of the world just stopped

(I hope) I want to go back to then
Got to figure out how,
got to remember when
I felt it, it thrilled me
I want it, to fill me

You don’t know what you
got ’til it’s gone
And everything in life just goes wrong
Feels like nobody’s listening
And something is missing
I remember when
You were the one
You were my friend
You gave me life
You were the sun
You taught me things
I didn’t run
I fell to my knees
I didn’t know why
I started to breathe
I wanted to cry
I need a reminder
So I can relate
I need to go back there
Before it’s too late

Sex with you is…
Incredible
Let’s finish what we started
Incredible
You’re welcome to my party

I don’t want this to end
I am missing my best friend
It was incredible
There is no reason

It’s incredible, unbelievable
It’s incredible, unachievable
It’s incredible, metaphysical
It’s incredible

Madonna

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Máquina do Tempo

Maio 6, 2008 · Não Há Comentários

 

Depois do blog sobre a Web em 1996, eu fiquei muito entretida com essa história de comparar a web de 10 anos atrás com o que temos hoje em dia. Confesso que sofri de vergonha alheia pela maneira como algumas marcas se apresentavam nos primórdios da web.

Despida da comparação inicial com Web 2.0, Flash e linguagens, afinal eram os primórdios da Internet, começo a me divertir com a navegação old school graças ao Wayback Machine! O importante era ter a informação em algum lugar, criar a funcionalidade para o usuário e até a cultura da Internet. Não havia espaço para o design, as funcionalidades, interfaces, quando tudo era só o começo e ninguém sabia o que ia acontecer.

Não é bem que não existia espaço. Na verdade não tinham ferramentas adequadas, não havia estudos suficientes para tornar atrativa a comunicação online. Muito mais do que comunicação, a web era informação. E já era canal de compra também.

O mais interessante da pesquisa é observar que, em termos de simplicidade, sites de busca e de varejo pouco mudaram em sua navegação e estrutura. O motivo? Bem, esse tipo de serviço não precisa de “frescura”. Os sites que mais acompanharam as tendêncais, usaram isso mais para reposicionamento, demonstrar modernidade, ousadia e proximidade com as novas tecnologias. O máximo que eu quero de um site de varejo é ampliar e ver de outros ângulos a foto da minha nova geladeira. De resto, joga o HTML com scroll até o fim da vida, que está tudo certo!

Olha como o Google sempre foi lindo e limpinho??? E agora ele também é muderrrrno…

Antes

 

 

Depois

 

 

 

 

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Iron Man

Maio 5, 2008 · Não Há Comentários

Como o que me chama mais a atenção é música mesmo (queria ter a mesma disciplina que tenho para entender de música para entender a bolsa de valores… aiaiai). A trilha sonora já faz parte do meu top 10. Depois de Spartans, certamente foi o filme que mais mexeu com o espírito do meu testosterona ativo circulante!

1.   Driving With The Top Down (03:09)
2.  Iron Man [2008 Version] (01:05) Performed by John O’Brien & Rick Boston
3.  Merchant Of Death (02:14)
4.  Trinkets To Kill A Prince (03:07)
5.  Mark I (03:53)
6.  Fireman (02:09)
7.  Vacation’s Over (03:34)
8.  Golden Egg (04:12)
9.  DamnKid (01:12) Performed by DJ Boborobo
10.  Mark II (02:47)
11.  Extra Dry, Extra Olives (01:43)
12.  Iron Man (03:30)
13.  Gulmira (04:05)
14.  Are Those Bullet Holes? (02:00)
15.  Section 16 (02:33)
16.  Iron Monger (04:45)
17.  Arc Reaktor (03:55)
18.  Institutionalized (03:49) Performed by Suicidal Tendencies
19.  Iron Man (00:20) Performed by Jack Urbont

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Maio 5, 2008 · Não Há Comentários

Acreditar nos símbolos é algo que me faz voltar a postar… Não é a coincidência de fatos que possam me levar a pensar que existe um destino e eu resolvi andar pelos seus trilhos que fez meu olho brilhar. Foi a sequência de fatos que pode fazer uma pessoa comum se tornar mística.

Situação número 1: o Déjà Vu na frente do micro. Estar na mesma posição de luz, ângulo da cadeira e gráfico interminável na minha frente, faz o pensamento ir longe. Foram 3 minutos de paralisação.

Situação número 2: a certeza diante de uma situação confirmada com a experimentação.

Situação número 3: o bebê engatinhando no Estúdio de Tatuagem. Um ano depois. Ele nasceu alguns das depois de quando eu resolví mudar tudo. Objetivos nobres e outros nem tanto, não importa. Ele mostrou que tudo mudou. Ele e eu estamos engatinhando, diante de novos desafios.

Situação número 4: o louco do bairro. Na frente do meu carro. O câmbio não funciona. E eu vejo o dia que eu corrí do saco de lixo na infância. Esse paralelo foi o mais fácil: meu carro está um LIXO e eu tenho que correr para trocar logo essa carcaça. A montadora não entraga o carro (no papel do sujeito louco) e eu me viro como posso. Viu como é fácil fazer associações?

Quanto mais eu tenho certeza do Masterplan, mais fácil fica fazer acontecer… Sem caminhos imaginários, gurus ou totens.

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O escuro

Abril 16, 2008 · Não Há Comentários

A luz é atividade. Escuridão, a inércia. Quando não se consegue enxergar, perde-se os movimentos, tateia-se, há perigo de se machucar. Como a luz recebeu todos os méritos pela bondade terrena, o escuro acabou reconhecido como o mal agindo no espaço físico.

O medo de escuro é herança passada de gerações para gerações. O fenômeno surgiu da transmissão cultural de nossos ancestrais, que mesmo após terem descoberto o fogo, mantiveram rituais para impedir ou enfrentar as consequencias da maldade existente na falta de luz. A perpetuação da imagem criada para a escuridão foi garantida em sua forma mitológica - a idéia de Lúcifer e a necessidade de não se deixar dominar pela suas artimanhas.

Cercados de toda espécie de lâmpadas, holofotes, neóns e afins, ainda é possível sentir a mesma angústia existencial provocada pelo escuro? Certamente. O escuro conseguiu driblar toda e qualquer fonte de luz artificial e se instalou na história atual. E a mais intrigante característica do escuro é que ele se situa entre duas zonas cinzentas (território inóspito), é extremamente infantil e lento.

Com esse perfil, é possível trabalhar de duas maneiras com o escuro: sentir-se sem opção e impotente ou acostumar-se a ele. A primeira opção é para os fracos e os que não conseguiram perfurar a densa camada  da época dos dentes de leite. Tenderá à segunda opção aqueles que já despertaram para o espírito carnívoro e respeitam o afiado de seus caninos.

É difícil enfrentar um medo, mas com o tempo é possível passar as fases. Você se acostuma a não enxergar. Um dia fica confortável. Então o que era temido passa a ser curioso. Você pesquisa e se informa. Informação é poder. Nesse estágio, você já consegue garantir um pedaço do seu legado. Apelando novamente para a trasmissão cultural, nossos ancestrais também nos ensinaram que o furor da mente é cego. Talvez esse seja o prenúncio da boa convivência com a tão temida escuridão…

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Aproveito o dia para resolver as pendências. E como eu estava na Zona Sul, resolvo ficar no meio do caminho…

Abril 9, 2008 · Não Há Comentários

Avenida Ibirapuera, 2 da tarde. E como eu estava ansiosa e não conseguia oganizar o pensamento, eu precisava gastar energia. A série da academia não ia surtir efeito algum. Então eu saí para uma caminhada. E como eu estava no Ibirapuera eu resolvi atravessar Moema a pé, e saí na Av. Santo Amaro. E de lá eu estava avistando a ponte que me levaria ao Brooklin, e um pedestre não consegue atravessar essa ponte sem o auxílio de 4 rodas, então eu virei à direita e andei a Avenida Bandeirantes em direção à Vila Olímpia. A Av. Bandeirantes faz parte da categoria EU NUNCA. Sempre passo de carro e imagino que eu nunca estaria andando a pé por lá. Eu estava. E fiquei observando as dificuldades de estar sozinha no meio de um monte de carros e você não tem uma faixa de pedestre pra atravessar. E fiquei com dó do meu Higiporo quando eu chegasse em casa.

Como era 4 e meia e eu ainda não estava com a cabeça limpa, eu precisava andar mais. As nuvens estavam ficando cada vez mais carregadas, então eu fui até a Av. Faria Lima. A pé. Chego no Shopping Iguatemi. Eu não tinha destino. Ele era o que tinha de aberto quando começou a chover. Eu não me importava de tomar um cappuccino com coxinha, sentindo cheiro de Keneth Cole no ar.

Fiquei pensando que eu não fazia parte da categoria competitiva, eu pertencia aos colaborativos. E isso faz toda a diferença, quando você tem como brincadeira favorita fuçar novidades. E com o tempo você percebe boas oportunidades, quando surge a pergunta: Por que não colaborar? Essa era a minha melhor definição - colaborativa. Eu gosto de ver acontecer coisas que eu acredito. E meu ego não precisa ser massageado todo o tempo.

Não havia mais mesa disponível. Onde eu ia colocar meu café e um monte de pensamento amassado? Foi quando eu a ouvi “Sente-se aqui, eu vivo numa cidade comunitária”. Ela era fina, inteligente, prática e… colaborativa. Morava em Nova Iorque e estava passeando em São Paulo. Resolveu voltar ao café que gostou, quando passou por aqui meses atrás. é o tipo de pessoa que você poderia conversar por horas, sobre os melhores tópicos do mundo. Só que estávamos lá, conversando sobre amenidades e pessoas que não dividem a mesa do café. Alguém, um dia, naquela mesma mesa, conseguiu falar um não para ela. Eu jamais deixaria aquela mulher sem mesa.

Saio, olho, a chuva não para. Ando mais. Paro na porta. Vejo alguém querendo fazer coleguismo. Ela pergunta sobre o tempo, o melhor caminho, onde fica o Itaim. Eu paro de falar, ela me olha e começa a elogiar minha bota. Quer saber onde comprou, onde eu moro, que caminho eu faço todo dia para ir e voltar dos lugares, tenta contar um pouco da vida dela. Seu verdadeiro interesse é perguntar mais e mais sobre mim. Inverto a posição de Stalker e ela fala.

Começo a pensar em coisas aleatórias: “Que diabos um cara vai fazer com todas as cuecas do Abadía?”, “Será que o sussuro da Bjork Free Tibet, durante a música Declare Independence teve sua responsabilidade pela noite de revolução na China?”, “Como é difícil fazer xixi de pé quando você adota o visual máquina zero”, “Olha como a vida é engraçada, uma semana depois que eu escuto que eu poderia viver de projetos que me fazem feliz só para pagar a conta do salão, porque eu ia ter um cartão de crédito para tudo que eu precisasse se eu fosse uma boa menina, olha como a vida muda. É a força de vontade de não se ver nessa situação”, “Ser madrinha é ter que ir no Clube das Mulheres. O que elas vêem de novidade nisso? Bem, talvez pq eu tenho mais fácil acesso a um corpo atualmente do que elas”.

Vou embora e agradeço a companhia. Enquanto ela falava eu não me incomodei em ficar em silêncio e pensando. Eliminei os assuntos aleatórios e iniciei as necessárias análises. E olha que tenho grande dificuldade disso. A conversa dela foi a melhor organização de pensamento que eu já tive. Perdí a chance de trocar telefone para o próximo surto de embaralhamento…

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