A tendência era acompanhar a vida alheia. Não só acompanhar, mas direcionar. O prazer máximo do stalker. Era possível ter a delicadeza dos detalhes e acesso aos pensamentos de cada uma das partes envolvidas. A graça estava em poder colocar o seu julgamento para controlar o resultado de uma história. Qualquer história. E os atores reais jamais desconfiariam. Como não existe certo ou errado para um desfecho da vida, ninguém se importava com a dor ou a alegria que seriam consequentemente geradas.
O grupo era formado por 47 pessoas. Se encontravam semanalmente em uma sala de cinema no centro da cidade. Cada cadeira da sala, tinha 2 botões, um verde e o outro vermelho. Não se conheciam. Todos tinhas personalidades, habilidades e profissões diferentes. A única certeza era que todos gostavam de acompanhar histórias. O que fariam ao final de cada encontro, não era discutido. Um grupo fechado. Não era permitido comentários sobre aquele prazer semanal indescritível ou tudo seria perdido.
Dez minutos passados da hora marcada, a exibição começa.
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No dia que ele decidiu que não a amava mais, levantou-se da cama no meio da madrugada e não teve mais coragem de olhar para o lado. Faltava a beleza, a verdade e a euforia dos primeiros dias. Foi para a sala sentindo-se frustrado.
Pensou nos problemas. Que problemas? Ah, sim eles existiam. As outras pessoas existiam. Doeu quando ele observou isso. “O combinado era eu e você. Se era para enxergar o resto, não precisava mais de você e dos seus pequenos grandes defeitos”. Os defeitos do jeito, do corpo. Que ele havia guardado em segredo. Queria explodir para todos quais eram eles. Para que pudessem entender sua situação. E se descobrissem os defeitos dela? E admirassem cada um, assim como ele fazia?
Ela tinha pressa de tudo. Pensou na voz, nos movimentos sempre rápidos. O jeito dela lidar com a vida em geral. Aquele jeito de mãe, aquele jeito de menina. O cabelo que entrava na boca, na hora de dormir. A unha quebrada que arranhava as costas. Abriu uma garrafa, entornou vários copos de qualquer coisa que tinha na sala.
Acordou no sofá, um pouco torto. Tudo estava cinza e quieto.”Devia ter dito a verdade. Sempre. Devia ter pensado mais em mim. Devia ter pensado mais em você”. Imaginou como seria a sua vida, se tivesse a coragem de fazer tudo diferente. Uma mulher mais bonita talvez. Mais quieta. Que não opinasse tanto. Quando pensou na vida dela sem ele, fechou a cara. Ela poderia ter sido mais feliz. Não gostava de admitir isso. Ele a fazia feliz.
Foi até o quarto em passos firmes. Ao lado dela conseguia ser estranho, sem entorpecer o mundo com suas particularidades, pois havia compreensão. Sentia-se bem em ser bobo e ao mesmo tempo diabólico. Gostavam de emitir opiniões sobre o nada ou quase nada. As opiniões emitidas em conjunto, era que tornava um tópico importante.
Abriu a porta do quarto. Escutou a música. Objects of my affection. “And the question is was I more alive than right now?”. Lembrou de todas as músicas. Do convite “Podemos dançar?” no meio da semana, no meio da sala. De quando não era preciso mostrar quem era com palavras.
Sentou na poltrona.
***
O grupo se entreolhou. Teriam 5 minutos para decidir pela declaração de não-amor. Ou não.
O que você escolheria se fizesse parte desse grupo?

